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CONSUMO DE VEGETAIS NA SÍNDROME DE DOWN.

sábado, 12 de março de 2016 0 comentários
Alguns médicos pediatras recomendam que crianças com síndrome de Down abstenham-se do consumo de brássicas, grupo de hortaliças que incluem brócolis, couve, couve-flor, couve-de-bruxelas, nabo, rabanete, rúcula e agrião. Eu discordo e já explico o por quê. O motivo da restrição das brássicas, por estes profissionais, é a preocupação com o funcionamento da tireóide. 

A glândula tireóide é responsável pela produção dos hormônios T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina), que regulam o metabolismo, processos químicos e físicos no organismo. Estima-se que entre 30 e 40% das pessoas com síndrome de Down desenvolvam hipotireoidismo, com baixa produção dos hormônios da tireóide. Tanto a doença de Graves quanto a tireoidite de Hashimoto são mais comum neste grupo, pela desregulação do sistema imune.

Existem pelo menos 10 genes localizados no cromossomo 21 responsável pela regulação do sistema imune. O mais importante é o FOXP3 e sua desregulação está associada às doenças autoimunes. O gene AIRE também localizado no cromossomo 21 está pouco expresso na síndrome de Down, o que também aumenta o risco de problemas autoimunes relacionados à tireóide (Aversa et al., 2015).

O hipotireoidismo pode se desenvolver em qualquer fase da vida trazendo consigo sintomas como cansaço, intolerância ao frio, pele seca, áspera ou fria, prisão de ventre, sonolência, apatia, aumento de peso e rouquidão na voz. O diagnóstico definitivo vem com a análise periódica dos níveis sanguíneos dos hormônios T3, T4 e TSH. Comprovado o diagnóstico, o tratamento baseia-se na reposição hormonal durante toda a vida.

Quais são as causas do hipotireoidismo?
São várias as causas do hipotireoidismo, incluindo problemas autoimunes, como a tireoidite de Hashimoto, redução do tecido tireoidiano por iodo radioativo ou por cirurgia, deficiência de iodo, doença de Graves, uso de determinados medicamentos (carbonato de lítio, amiodarona, propiltiouracil e metimazol), erros inatos da síntese de hormônios tireoidianos, deficiências hipofisárias e hipotalâmicas, resistência periférica aos hormônios tireoidianos e doenças congênitas.

A tireóide também é muito afetada por metais pesados (alumínio, chumbo, mercúrio,arsênico, cádmio), pelo glúten, soja, além dos glicosinolatos e isotiocianatos das brássicas, os quais podem interferir no uso do iodo pela glândula. Altas quantidades de vegetais crucíferos podem desencadear o hipotireoidismo caso o iodo também esteja em quantidades insuficientes na dieta (Fenwick, Heaney e Mullin, 1983). Os minerais iodo, zinco e selênio são fundamentais para a produção de hormônios da tireóide na forma ativa. O equilíbrio entre a quantidade de iodo e a quantidade de isotiocianatos das brássicas determina em parte a quantidade de hormônios que serão produzidos.

A causa exata do hipotireoidismo na síndrome de Down é desconhecida (Cebeci e Yildiz, 2013). Entendo que os médicos estejam tentando prevenir o problema reduzindo-se a oferta de brócolis e outros vegetais do grupo das brássicas. Contudo, o desenvolvimento do hipotireoidismo pode estar relacionada a vários fatores inerentes à própria síndrome, assim como a uma série de fatores externos.

Por quê não concordo com a exclusão completa destes alimentos?
- Estudo de Masci e colaboradores (2015) mostrou que sucos de brássicas protegem as células contra a toxicidade do peptídio beta amilóide, responsável pela doença de Alzheimer. Este ao meu ver é um problema muito maior na vida de indivíduos com síndrome de Down do que o hipotireoidismo. Veja bem, não estou dizendo que o hipotireoidismo não seja problema. É sim! Depois dos problemas cardiovasculares e da demência é uma das principais causas de óbito (Yang, Rasmussen & Friedman, 2002). Os valores plasmáticos dos hormônios tireoidianos devem ser acompanhados anualmente mas sem descuidarmos de outros aspectos da saúde.

- As brássicas fornecem vitaminas, minerais, fibras e os tais glicosinolatos, agentes eficientes no reparo celular, reduzindo o risco de câncer, doenças cardiovasculares e inflamatórias. 

- As brássicas são uma fonte adicional de colina, nutriente fundamental para a melhoria do funcionamento cerebral, da atenção, da cognição espacial, além de prevenir o declínio da memória. A colina também ajuda a retardar o Alzheimer, estimulando a formação de novos neurônios. A gema de ovo é bastante rica em colina. Dentre os alimentos de origem vegetal destacam-se o brócolis e a couve-flor. Mulheres devem aumentar o consumo de colina especialmente se estiverem grávidas ou amamentando criança com síndrome de Down (Moon et al., 2010; Velazquez et al., 2013).

- Crianças com síndrome de Down acompanhadas de autismo também parecem se beneficiar do consumo de sulforafano, presente no brócolis. Após 18 semanas de uso, as interações sociais e comunicação verbal melhoram (Singh et al., 2014).

Dicas importantes:
- Ofertar boas fontes de zinco. Este mineral é co-fator da enzima Desiodase tipo 2, que converte o hormônio T4 (inativo) em T3 (forma ativa). O zinco também faz parte dos receptores para o T3. Destacam-se como boas fontes os frutos do mar, ovos caipiras, sementes (girassol, linhaça, ect), aveia, amendoim, amêndoas, avelã, castanhas e lentilha.

- Incluir fontes de selênio na dieta. Este mineral é co-fator da enzimas Desiodase tipo 1, igualmente importante para a ativação do hormônio T3. Castanha do Brasil (Pará), semente de girassol e alho cru são boas fontes de selênio.

- Inclua diariamente fontes de iodo, que podem vir do sal iodado, de algas e frutos do mar. Suplementos para crianças com síndrome de Down (como newdowns, nutriente D) possuem iodo (iodine), zinco e selênio na composição.

- Alimentos que contém cianetos (brócolis, couve de bruxelas, mandioca, rabanete) não devem ser consumidos em excesso. Contudo também não se deve eliminá-los totalmente pois seus compostos contribuem para a prevenção do Alzheimer e de vários tipos de câncer. Para minimizar o efeito dos cianetos oferte todos os alimentos deste grupo cozidos.

- Evite o consumo excessivo de cloro, pois ele também está relacionado com o bloqueio de iodo na tireóide. Utilize água filtrada ou mineral e evite o uso do adoçante sucralose.

- Caso o hormônio da tireóide já esteja sendo usado, evite alimentos que contenham soja por pelo menos 4 horas após a ingestão do hormônio sintético para não prejudicar sua absorção. Além do grão de soja e derivados como leite de soja e tofu, muitos alimentos industrializados contém proteína de soja na composição como peito de peru, salsicha ou são feitos com farinha de soja. Fique atento às embalagens.

PS: No próprio site do CEPEC, coordenado pelo dr. Zan as brássicas aparecem entre as hortaliças indicadas: http://www.sindromededown.com.br/?page_id=192

Fonte: NutriYoga.